Destinos – Série: 53 Contos Curtos – 001/053

DESTINOS

 

Explicar os universos paralelos tornou-se desnecessário, ultrapassado e sem sentido. Todos nós já sabemos e conhecemos cada um deles, cada um dos nossos outros “Eu” vivendo vidas diferentes da nossa, umas melhores, outros piores, bem piores. Ainda assim quando cruzamos essa fronteira, outrora proibida, sempre nos surpreendemos com os detalhes e situações que poderíamos ter vivido, por isso não preciso contar essa história. Há, no entanto, uma outra que me intrigou muito, narrada por um amigo que não posso identificar por causa das possíveis retaliações.

Em uma dessas idas e vindas pelos universos ele entrou sem querer em uma elipse temporal. Quando acordou percebeu que vivia em um lugar completamente diferente de onde havia estado. Ninguém o conhecia e ele a ninguém. Perguntava, indagava, questionava e nenhuma pessoa respondia ou fazia questão de fazê-lo. Depois de tanto custo e tempo adaptou-se aquele mundo completamente estranho.

Seu principal objetivo ainda era sair de lá. Mas como se nem sabia onde estava?

Notou que vivia dentro de uma espécie de anel que era circulado por outro maior e que circulavam em órbitas contrárias, o de dentro onde vivia girava em direção ao dia e outro em direção a noite fazendo com que se econtrassem em curtos períodos.

Eram anéis construídos por mão humana onde viviam pessoas que executam as mais diferentes tarefas com o único objetivo de manter circulando esses estranhos objetos.

Em uma de suas vigílias avistou uma jovem linda, que tinha um olhar distante, e todas às vezes que os anéis se alinhavam ele acenava e ela não respondia. Na verdade perdeu a conta de quantos ciclos haviam se passado até que decidiu mudar de estratégia.

A primeira delas e mais óbvia e, por isso, um fracasso total foi a tentativa de jogar objetos por cima do anel, mas nem se quer passavam perto. Escrever cartazes enormes também foi um pensamento e uma ação sem muito sucesso. Incontáveis foram as tentativas e todas falharam.

Não suportava mais ver aquele belo rosto distante de tudo e triste como se não houvesse esperança.

Em uma manhã quando tocava e cantava para tentar distraí-la foi chamado em um canto por um completo desconhecido que disse sem muito rodeio:

– Podemos parar um dos anéis para você falar com ela.

Antes que ele perguntasse qualquer coisa, o estranho tratou de explicar:

– Bem, é claro que não será uma operação simples e não vai durar por muito tempo, mas é possível. Eu e meus amigos da ala leste já fizemos isso uma vez para tentar escapar e não tivemos sucesso, alguns morreram, outros desistiram e o grupo se desfez rapidamente e, por isso,  não tentamos novamente. Depois de muito tempo entendemos que as rotas dos anéis não se cruzavam por que estamos em épocas diferentes. Nós do anel de dentro podemos ver o anel de fora mas eles não podem nos ver. Quando tentamos contato é sempre a mesma coisa.

Você deve estar se perguntando como isso é possível e eu te respondo. O que nós vemos é apenas uma projeção. O que acontece lá já se passou  há anos e por isso não estabelecemos contato e esse foi o motivo de desistirmos. Entretanto há um cientista que fez parte do grupo e que tem uma teoria interessante.

Meu amigo e o desconhecido se encontraram com o cientista que explicou o que poderia ser feito para reverter a situação e quem sabe até libertá-los daquela prisão.

Estranhamente ele não parava de pensar naquele rosto.

A ideia é relativamente simples. Temos que conseguir reverter  e acelerar a rota do nosso anel, de maneira que ela atinja uma velocidade tal que nos leve de volta no tempo e no momento exato em que os anéis foram construídos. Sim, eu sei que a casa de máquinas é quase inatingível e muito bem vigiada. Para isso já temos alguns amigos infiltrados. Na verdade esse não é o maior problema. O que será difícil mesmo é entrar na sala de controle e reprogramar o anel e aí que você entra. Não se preocupe, não é necessário conhecer programação, basta seguir os comandos que vamos te passar.

Tudo havia sido organizado para aquela noite e tudo correu conforme o planejado.

Quando os anéis se cruzaram no momento do impacto inicial ficou claro que a única intenção daqueles que o criaram era separar pessoas de seus entes queridos para ver o quanto resistiam e mantinham sua vontade de se encontrar mesmo que em épocas diferentes.

Origem:

 

SÉRIE: 140 MICROCONTOS INABORSIVOS (140 CARACTERES) – DESTINOS – 048/140         

http://www.contosinaborsivos.com.br

 

DESTINOS

              Difícil dizer o quanto se amavam e menos ainda porque se separaram. O que se sabia era que tinham apenas um ponto em comum: Épocas diferentes.

 Ronilton Camara – 2014 –      – Todos os direitos reservados – revisado

 

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